- XÉREBRO! - grita trôpego o
morto-vivo.
- COMÊ... XÉ... XÉREBRO.....
Mesmo cambaleante e tortuosa, a passada do monte de carne putrefada é constante
e ligeira. A moça tenta escapulir mas o baque do susto e o salto alto não dão
nem chance pra ela.
Ela sabe que qualquer mordida é fatal. Seus neurônios serão a janta do babão
e quando ela se levantar de novo terá a mesma sina: ser zumbizona!
Ela sabe, ela viu os filmes, leu os gibis e livros.
Pumba, estão no chão. Ela se debate, mas já sente as forças lhe deixando na
mão.
Um família passa de carro, um sedã francês:
- Querido, veja que desagradável! Acho que é um estrupo.
- Definitivamente não é problema nosso. E a vadia deve estar gostando.
- Pai, o que é aquilo?
- Ok, filho. Eu compro o lego do Harry Potter pra vc.
- Ueba!
A sensibilidade dos zumbis é zero.
Eles apenas seguem seu instinto sobrenatural metafísico de comer xérebros e se
propagar.
Os apartamentos em volta estão acesos.
É quinta feira, duas da madrugada, mas estão todos acesos.
A luz é oscilante em cores e formas, é a TV.
A moça grita. Vidros trincam.
A TV mostra uma homem-bomba no oriente médio em notíciario urgente,
interrompendo o corujão.
De todos, apenas uma senhora percebe o perigo da moça e tenta acertar o
monstrengo com um vaso.
Percebe o que faz e pensa: "Minha begônia! coitada!!"
E Erra.
Triste, ela muda de canal.
A mordida, finalmente, é certeira.
O xérebro, que nem era tão grande assim, é consumido.
Agora ela se juntará a ele na próxima noite.
Um casal.
Se zumbis pensassem, mas ele não pensam (eu sei, pois li), eles estariam
contentes em estarem juntos na mesma empreitada.
E viveriam uma bonita história diária pós-meia-noite.