Era uma
pomba com senso crítico.
A realidade a fez pomba, isso não havia como reverter.
Mas não por isso deveria ser passiva e estática. Por que não
expressar suas opiniões do modo que lhe é possível?
Não
há muitas maneiras de se manifestar sendo pomba. Arrulhar é uma,
mas quase imperceptível numa cidade com carros e berros. Voar é
outra, mas muito sutil.
Cagar é a única alternativa de impacto. A Via Bostérica.
Ainda que cinzas com nuances tipo aurora boreal, as pombas de rua gozam de mais simpatia que os ratos, mesmo sendo talvez tão sujas quanto. A coisa da pomba da paz ou do espírito santo deve ajudar nisso.
Enfim, essa
pomba cagava, como todas as outras cagam, mas peculiarmente com parcimônia.
Selecionava seus alvos sanitários.
Gostava, claro, de pessoas carecas e calvas, mas na maior parte das vezes procurava
aqueles que falavam coisas que discorda.
Caso alguém
comente de estilingues e bodoques, BLOCH!
Repudie-a por riscos de toxoplasmose, candidíase, histoplasmose, erisipela
e afins, BLOCH!
Questione sua ascendência euro-asiática, BLOCH!
Cite armadilhas com lanças ou cola, BLOCH! BLOCHHH!!
Enfim todos que ferissem os sentimentos, moral ou integridade das columbas, zenaidas e demais pombas ela blochava.
Mas com
o passar do tempo as causas pombais lhe pareceram limitadas e começou
a questionar outras coisas. A necessidade fisiológica também ajudou
a aumentar seu leque de alvos blocháveis.
A lógica dos homens a incomodava. Discrepância social, injustiça,
desonestidade, agressividade, ódio... Tantas coisas a blochar. E blochava!
A pontaria já era impecável àquela altura. A crítica também se tornara afiada.
Corrupção,
chantagem, falcatrua? BLOCH!
Dogmatismo, messianismo, imposição? BLOCH!
Mercantilização, valor de troca, exploração no trabalho?
BLOCH!
Imperialismo, neoliberalismo centro-esquerdista, esquerdismo? BLOCH! BLOCHH!!
E estava
ficando craque nisso!
Seu entusiasmo crescia, UAU! De fato fazia algo de progressista com sua vida!
Mas viver de migalhas e lixo numa cidade poluída e suja não propicia longevidade a ninguém, muito menos a uma pomba de rua. E logo ela se viu enferma e debilitada.
Grogue que só ela, foi decaindo de longos vôos para voinhos, de voinhos pra rasantes curtos, de rasantes curtos pra pulos e de pulos pra cambaleios trôpegos.
Pensou em tantos finais dignos, finais kamikazes que deixassem alguma contribuição mesmo que póstuma.
Pensou tanto que se distraiu e não viu um transporte coletivo de algumas toneladas em rota de colisão com ela.
E Bloch! – dessa vez outro que não bostal.