- Aí! Me arruma um real pra interar a passagem?
O garoto cheirava azedo, e parecia demais que ele cheiraria outra coisa com meu real.
- Onde você mora, rapaz? - retruquei, forçando o ar rude que não tenho. A entrada do metrô tava logo em frente, seria fácil ignorar esse menino e descer a escada rolante. Muito aconselhável a essa hora, talvez.
Mas todos fazem isso, ninguém gosta de se sentir invisível e nem eu de ignorar alguém.
- Franco da Rocha.
Falta um real pro trem.
- Vem que eu te empresto o passe do metrô, você pode baldear no
Brás e pegar o trem de graça até a sua cidade.
- Não... é que eu quero pegar na Luz.
- Mas a Luz tá longe pra burro, rapaz! - e de fato era longe! Estávamos na praça da República, não tinha o menor sentido ir até a Luz. Mas não havia com que se surpreender, coerência não era importante pro garoto, e pelo visto só aquele real importava mesmo.
- Vem, vamos de metrô. - insisti e pus a mão no ombro dele.
- Vaitománocú! - berrou e me empurrou correndo e falando coisas que eu juro que não faço idéia do que poderiam significar.
Quando me toquei já tinha passado pelo menos uns 15 minutos que eu tava naquela posição. Pensei em tanta coisa, mas nada conclusivo. Odeio quando as questões mais se emaranham do que solucionam.
Ninguém reparou na minha estaticidade momentânea, todos passam na praça, mas na verdade é como se não tivesse ninguém. Frieza megalopoliana, convivo com isso a uns 20 anos.
Resolvi voltar a pé hoje, pra refrescar as idéias. A distância da praça da República até a Vila Mariana acho que é o suficiente pra equacionar parte do que pensei... espero. Ouço a porta do metrô fechando quando dou os primeiros passos, já passou da meia noite então.
Os comércios fechados dão um ar assustador ao centro. E se não fosse alguns jogando um sincero futebol numa das travessas da sete de abril o silêncio seria aterrador. Pena que logo alguém rechaçará a pelada urbana. Viva o centro.
Penso como é engraçado o fato da mais bem sucedida rede fast food brasileira ser de comida árabe. Penso e engulo a esfiha de 49 centavos. Hoje estava especialmente ruim, pena não ter bons hot-dog's ou yakissobas nesse trajeto. Receio demais os restaurantes da liberdade que ficam abertos até essa hora, os que me arrisquei entrar eram mais lupanar que qualquer outra coisa. E tem a coisa da máfia, que não conheço e não pretendo conhecer.
O resto do caminho é automático, só usei a voz pra proferir um "não, obrigado" a uma prostiputa na altura da praça da Sé, que não era feia, mas nem se eu tivesse os 30 reais sugeridos eu me arriscaria; e pra pedir a esfiha.
Não gosto da parte do caminho entre a Ana Rosa e a Vila Mariana, andar a pé lá é horrível. Parece que a cidade é feita só pra carros. Mesmo o centro deserto e sombrio é mais acolhedor.
Gosto de olhar as janelas do meu prédio e ver o que as pessoas fazem. São 1:30 da manhã e a mulher do 32 ainda tá vendo TV. Ela fica vendo TV até umas 3h, todo dia. A luz do 11 tá apagada, mas porque o cara ainda não chegou, provavelmente vem de carona e o amigo dele vai dar aquelas duas buzinadas de "falou, até amanhã!". Gosto de ver tudo isso, mas vejo rápido porque não é bom marcar touca na porta de casa.
Entro, jogo o sapato num canto, tiro a água do joelho que tá me mandando lembranças desde a altura da rua São Joaquim (ainda não me sinto à vontade em fazer isso na rua), lavo a cara, me estiro no sofá velho e lamento profundamente que uma cidade de 10 milhões de habitantes não tenha um delivery decente que faça entrega depois da meia noite.
E conclusão,
ha, cheguei a nenhuma razoável.