Adoro aquela estátua. Braços abertos
e erguidos, fortes porém femininos.
Umas folhas numa mão e uma tocha, tipo a da Liberdade norteamericana,
noutra.
As titicas de pomba em volta até caem bem, não só literalmente,
mas pra tonalidade... quebra a frieza do metal escuro...
E o páteo... ah... que lugar... pombas
pra todo lado! Um café bunito, que não dá pra comprar nada
de tão caro, mas bunito, muito bunito.
Pena não deixarem ficar muito lá... "o senhor deseja alguma
coisa?". Claro que desejo... quem não deseja?! A pergunta é
bem maior que a intenção... engraçado isso... seria mais
fácil expulsar.
Desejo poder pedir alguma coisa nesse café e poder pagar! Desejo poder pagar qualquer coisa! Uma casa, uma roupa, um banho! Desejo... desejo... desejo as mulheres. Todas que passam aqui de dia... advogadas, executivas, gente gabaritada, acho. Roupa séria não esconde a beleza, realça. Mostrar demais estraga.
Desejo a garota da estátua... fria, forte,
bonita.
Vestido desajeitado. Brasileira nenhuma usa aquilo... só nas estátuas.
Parece mais um lençol.
A janelada às vezes me encabula, mas ainda assim tento subir pra abraçar
ELA. A janelada nunca vê nada mesmo. Ninguém nunca me vê.
Só o garçon do café.
Desejo dinheiro pra poder comprar tudo, até a garota da estátua.
Maldita
vida! Precisa de dinheiro antes pra fazer qualquer coisa depois. Alguma coisa
tá errada.